Em uma campanha eleitoral fui contratado pela agência responsável pela campanha de um candidato a governador para gravar várias reportagens denunciando o não cumprimento de compromissos do Governo Federal com Rondônia, firmados quando da elevação da condição de Território para Estado.
Recebi uma lista de obras inacabadas — ou sequer iniciadas — onde havia apenas uma placa indicando a intenção de construir algo.
Dessa empreitada não guardo muitos detalhes, pois já se passaram quase 40 anos. Permaneceram indeléveis, porém, dois episódios vividos junto com o cinegrafista Aldenir Campos, o “Chapinha”.
Em Ji-Paraná, fomos ao chamado “hospital do governo”, instalado no antigo presídio. Senti vergonha ao visitar as dependências. A sala de cirurgia era tão precária que havia lodo em uma das paredes.
As celas estavam improvisadas como quartos. Em uma das camas de concreto, apenas coberta por um lençol, uma mulher tremia com os sintomas da malária. Ao lado, um homem com problemas mentais começou a cantar o hino nacional quando viu o Chapinha gravando.
Dias depois, desembarcamos em Vilhena e fomos recebidos no aeroporto por um membro da executiva municipal do partido, que nos levaria ao local da denúncia.
No caminho, nosso anfitrião comentava sobre a campanha, as expectativas de quem seria eleito deputado estadual e federal, além das trairagens e fofocas paroquiais.
Após o trabalho, fomos almoçar antes de seguir para o aeroporto. Em certo momento, o homem falou baixinho, apenas para mim:
— Já distribuímos umas trinta carteiras [CNH], que renderão uns cinquenta votos certos! Fala com eles lá que estamos trabalhando para eleger a nossa chapa.
Respondi que daria o recado, paguei a conta e seguimos viagem. Na avenida Brigadeiro Eduardo Gomes, perto do Sesi, nosso carro levou uma fechada daquelas em que se escapa do acidente por milagre.
Abalado pelo susto, nosso guia só conseguiu xingar a mãe do motorista, que seguiu sem olhar para trás. Não me contive e comentei:
— Esse aí é um dos que ganhou a CNH…
Silêncio.
O homem nos deixou no saguão do aeroporto sem se despedir. Voltei a vê-lo outras vezes, mas dali em diante só me cumprimentava como se fôssemos desconhecidos.
[Crônica XCIX/2026 – Texto originalmente publicado no Jornal do Cool do Mundo – Edição nº 25, de 02 de maio de 2026]

