
Nem todo bruxo usa capa — alguns preferem sapatos de bico fino (Imagem criada por IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Acompanhei com o olhar um homem que atravessava o saguão vazio da rodoviária, à minha frente. O andar, meio inseguro, foi o que atraiu minha atenção.
Era um dos despachantes — aqueles que recebem a bagagem, a identificam e a acomodam no bagageiro do ônibus. Mas havia algo destoante: usava sapatos sociais pontudos. Os bicos eram compridos e levemente voltados para cima.
Sem ter mais o que fazer — não havia nada para ler e eu economizava a bateria do celular — inventei uma história para aquele trabalhador.
O professor Franklin Cascaes recolheu histórias populares sobre as bruxas que viviam nas antigas comunidades do litoral de Santa Catarina. Eram difíceis de identificar: discretas, quase invisíveis, andando com passos leves e comportamento reservado durante o dia. À noite, porém, trocavam de pele e se entregavam ao bruxedo.
A definição de quem era ou não bruxa nascia mais do imaginário coletivo do que de causas objetivas.
O homem que atravessou diante de mim usava sapatos incompatíveis com a função que exercia. O acessório estava deslocado no tempo e no lugar. Num instante, vi nele um bruxo que saíra apressado de suas atividades noturnas, sem tempo de trocar os sapatos usados para fazer maldades.
Sua principal travessura era esticar a perna para que as pessoas tropeçassem nos bicos exageradamente pontudos.
Vejam só o que acontece quando não ocupamos a cabeça com coisas boas…
[Crônica LXXXIX/2026]
