Por volta de 1334, o padre anglicano John Forde foi morto a facadas numa emboscada no centro de Londres. Mesmo com dezenas de testemunhas que apontaram um dos quatro executores, o crime ficou impune. Apenas cinco anos depois, um servo da família nobre do autor reconhecido, foi condenado pelo assassinato.
A motivação teria sido vingança da ex-amante do padre, Ela Fitzpayne, aristocrata londrina. Forde a denunciara por participar de vários crimes, inclusive o roubo de animais em um bispado, e por manter relações extraconjugais com clérigos e cavaleiros casados. O detalhe é que o próprio padre também estava envolvido em um dos delitos e a entregou para salvar a própria batina.
Por causa do roubo, Fitzpayne foi condenada a uma penitência pública considerada humilhante: a chamada Caminhada da Vergonha. Deveria percorrer descalça a nave da Catedral de Salisbury — a mais longa da Inglaterra — carregando uma vela de cera de quase dois quilos, uma vez por ano, durante sete anos.
A dama preferiu fugir e se esconder, sendo excomungada. Cinco anos depois, quando Forde passeava após as orações vespertinas, foi atacado por quatro homens que o esfaquearam, cortando sua garganta. Um deles era o irmão de Ela Fitzpayne.
A nobre jamais foi punida pela justiça. Pelo contrário: herdou os bens do marido, Robert Fitzpayne, e viveu tranquila até o fim de seus dias.
Essa história voltou recentemente à tona porque pesquisadores de crimes medievais concluíram que Lady Ela foi, de fato, a mandante do assassinato.
E eu pergunto: vai adiantar alguma coisa? Lembrei do protagonista da série Departamento Q, da Netflix. O intragável detetive Carl Morck, castigado com casos arquivados, começa a desvendá-los e a jogar *erda no ventilador circular.
Volto a perguntar: vale a pena?
[Crônica LXXXV/2026]

