Nosso time marcou logo aos cinco minutos e relaxou. O adversário, jogando em casa e empurrado pela torcida, veio para cima e não demorou a empatar.
O segundo gol deles saiu em seguida, num lance duvidoso: o juiz marcou pênalti e mesmo o próprio jogador que teria sofrido a falta achou a decisão exagerada. Mandaram ele fazer a cobrança e calar a boca. O gol e a virada.
A partir daí, o time deles se fechou, recuou para a retranca e não conseguimos mais atravessar o meio de campo.
No segundo tempo, a história se repetia, com o agravante do relógio correndo contra nós. Até que o Jegão, nosso ponta-esquerda, arrancou com a bola, misturando dribles e força bruta, derrubando adversários pelo caminho. Eu corri em diagonal, me oferecendo como opção.
Ele levantou a cabeça, me viu e lançou sob medida. Dominei e soltei um bico forte. A bola morreu no fundo da rede, já que o goleiro estava adiantado.
Comemoramos correndo para o meio do campo, mas o juiz anulou: impedimento. Cercamos o homem, tentando fazê-lo voltar atrás.
Nosso técnico me chamou à beira do campo. Espumava nos cantos da boca, parecia prestes a infartar.
— Coice (meu apelido é Coice de Mula, por causa da força do chute), na primeira bola que você pegar, acerta esse feladaputa!
— Quem, professor? — me fiz de desentendido.
— Esse juiz ladrão. Na cabeça ou na boca do estômago. Tem que parecer “acidental”.
— Sim, senhor.
Menos de dez minutos depois, recebi um lateral, mirei onde o juiz estava e carimbei o homem com uma bolada. Ele caiu desmaiado, gemendo. Uns correram para socorrê-lo, outros vieram me cumprimentar.
O jogo terminou com nossa derrota. O juiz acordou no pronto-socorro. Eu, agora, respondo processo na justiça desportiva por falta de fair play. Sendo que quem roubou no jogo foi justamente a vítima.
Não entendo isso.
[Crônica LXXXII/2026 – Texto inspirado em uma história que o meu pai contava e não sei se aconteceu]

