
Imagem extraída da câmera 07 – setor do crematório do Cemitério Municipal. Registro de possível movimentação irregular às 03h17min do dia 04/04/2026. Material em análise pela autoridade policial (Imagem e legenda criadas por IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
A polícia chegou cedo ao cemitério. O crematório estava em obras, cheio de andaimes e entulho. O administrador, nervoso, explicou:
— O vigia, na ronda da madrugada, encontrou a porta do crematório aberta e sinais de que o forno havia sido usado. O crematório está fechado para reformas, como podem ver. Temo que tenham cremado alguém… ilegalmente.
As câmeras não ajudaram: quase todas quebradas, as poucas funcionando mostravam apenas vultos andando entre as sepulturas. Cinco homens carregando um fardo pesado, talvez um corpo. Nada de rostos, nada de certezas.
O delegado coçou a cabeça e mandou verificar câmeras vizinhas. Nenhum registro.
A pista surgiu em um bar, em um bairro próximo. Um policial entrou para comprar cigarros e da mesa cheia de homens — e de garrafas vazias — ouviu em meio à balbúrdia: “Que beleza de fogo! Não sobrou nada dele!”
Minutos depois, o bar estava cercado. A maioria dos clientes foi liberada. Restaram seis homens, incluindo o dono. A história deles parecia mais piada de bêbado que explicação convincente.
Disseram que começaram a beber na sexta-feira da Paixão, por volta das dez da manhã, e fizeram uma aposta: quem desistisse primeiro seria o “Judas” na brincadeira de queimação no sábado de aleluia.
Florêncio misturou rabo-de-galo com cerveja, cachaça com conhaque de alcatrão e desmaiou perto das onze da noite, caindo primeiro sobre a mesa e depois no chão. Levaram-no para o fundo do bar, mas logo o capeta passou por ali e inspirou a turma a pregar uma peça de mau gosto no amigo.
Arranjaram um carrinho de mão e o empurraram até o muro do cemitério, por onde conseguiram passar o corpo de Florêncio para dentro. A ideia inicial era deixá-lo deitado sobre uma sepultura, mas ao verem o crematório ali perto, alguém sugeriu: “Vamos caprichar que o susto vai ser maior.”
Sem o carrinho, carregaram com dificuldade o corpo desconjuntado até a mesa de transferência. Não chegaram a colocá-lo dentro do forno, mas um deles ligou o painel. Enquanto a temperatura subia, esconderam-se para assistir à reação.
Florêncio despertou com um pulo. Ao ver o ambiente escuro e as chamas perto dos pés, saltou da mesa — já quente — e correu noite adentro. Rindo muito, os amigos desligaram o forno e voltaram ao bar, onde permaneceram até serem detidos.
Agora, ninguém sabe se Florêncio fugiu ou se acabou cremado de verdade. O delegado coça a cabeça: história de bêbado nunca é confiável.
[Crônica LXXIX/2026 – Texto ‘inspirado’ em uma frase que eu mesmo escrevi há muito tempo e reli anteontem]
