
Quadrado por convicção. Cartesiano desde antes de saber o que era (Imagem criada por Iago Copilot/Prompt JCarlos)
Estou lendo O recurso do Método, do suíço-cubano Alejo Carpentier, cujo título é uma paródia inspirada no clássico Discurso do Método, de René Descartes. Em certo trecho do prefácio, assinado por André Aires e Paulo Lannes, há referência ao “planejamento racional”, uma aplicação direta da ideia cartesiana defendida pelo filósofo francês.
Essa citação provocou uma sinapse e me fez lembrar de uma ocasião na redação de jornalismo da TV Alterosa, em Belo Horizonte. Cheguei pela manhã e vi as mesas espalhadas pela sala, na maior bagunça. Aquilo me incomodou. Então, tratei de arrumá-las: alinhei uma a uma, mantendo certa distância entre elas, para — na minha lógica — facilitar a circulação das pessoas.
Meu chefe à época, Luiz Gonzaga Mineiro, detestou a arrumação e disse em voz alta:
— Zé Carlos, você não está mais no quartel! Deixa de ser cartesiano!
Na hora fiquei chateado — até porque não sabia o que significava “ser cartesiano”. Mais tarde, pesquisando, percebi que sempre fui assim, muito antes dos quatro anos de serviço militar obrigatório e voluntário que cumpri.
Quando crianças, meus irmãos e eu aprendemos a levantar e arrumar a cama imediatamente, a colocar as coisas de volta nos lugares, a lavar o que sujávamos. Esse modo de proceder, incutido desde cedo, me acompanha até hoje, e eu chamo de “organização”. Sei onde está tudo o que preciso. Me esqueço ocasionalmente, mas é da idade.
Já fui chamado de sistemático, certinho, burocrático, cartesiano, quadrado, ultrapassado, pessimista, antigo, anacrônico, racional, metódico, teimoso, chato. Agora, no outono literal da vida, ao rever como me comportei nesses anos todos, não me arrependo nem um pouco do meu racionalismo “descartiano”.
Se tivesse que começar de novo, não mudaria nada: seguiria cartesiano, só que mais afiado.
[Crônica LXIX/2026]
