
A partir da esquerda, Jane Philippi, Maria José Carvalho de Souza, Marcondes Marquetti e Giana Souza (Foto JCarlos)
“Eu envelheço aprendendo algo novo todos os dias.” — começo esta crônica com a frase do filósofo ateniense Sólon, porque faço as duas coisas cotidianamente. A primeira — o envelhecimento — de forma involuntária; já a segunda, busco sempre, tentando ficar mais sabido.
Foi o que aconteceu no sábado passado, quando assisti a uma palestra da série Diálogos sobre a Revolução Federalista, com o tema “31 mulheres de São José na Revolução Federalista”. Só agora compreendi a importância dos josefenses nesse triste episódio da História do Brasil. O evento foi realizado no auditório do Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa.
Atrevi-me até a criar uma “frase de efeito” a partir do que ouvi na apresentação das escritoras Giana Schmitt Souza, Jane Maria de Souza Philippi e Maria José Carvalho de Souza: “Laguna está para a Guerra dos Farrapos, assim como São José está para a Revolução Federalista!”
As palestrantes relataram as participações diretas e indiretas das mulheres josefenses na Revolta, em ambos os lados da questão. Algumas pegaram em armas; outras deram suporte familiar a maridos, filhos, irmãos ou pais que aderiram à oposição a Floriano Peixoto e acabaram mortos ou fugitivos.

Homens armados foram colocados em locais estratégicos para resistir aos partidários de Floriano Peixoto (Ilustra Jane Philippi/Reprodução)
Entre os episódios, destacou-se a coragem de d. Ernestina Xavier de Oliveira Câmara, que tinha na família vários federalistas — entre eles dois filhos coronéis. Foi até o Desterro procurar o interventor, coronel Moreira César, e disse:
“Tenho dois filhos que participaram da revolução: coronéis ̃ ℎ ℎ . Não estão escondidos. Ambos residem na minha casa, em São José. Quero saber o que vossa mercê vai fazer com eles.”
Moreira César nada respondeu. Talvez o atrevimento da mãe tenha salvado a vida daqueles revoltosos.
À medida que as professoras apresentavam as “31 mulheres”, descobríamos curiosidades da Revolta sob o olhar josefense. Até então, eu só havia lido sobre como a rebeldia atingiu a alta sociedade da então Nossa Senhora do Desterro, com fuzilamentos, enforcamentos e decapitações de políticos, militares e até inocentes que figuravam nas listas de expurgo.
Reduto Federalista
Se Florianópolis carrega no nome a lembrança dos episódios sangrentos pós-Revolução Federalista, São José sofreu o que hoje chamariam de “asfixia financeira”. O interventor Moreira César assinou decreto retirando mais de 60% do território josefense.
A freguesia de Palhoça, Santo Amaro do Cubatão e Enseada do Brito, além dos distritos de Teresópolis, Santa Isabel, Capivari e da Colônia Militar de Santa Thereza, deixaram de pertencer a São José, dando origem ao município de Palhoça, onde havia muitos republicanos.

Josefenses federalistas enfrentam palhocenses republicanos a pedradas (Ilustra Jane Philippi/Reprodução)
As palestrantes também narraram episódios da resistência armada, como a cena em que os josefenses impediram o desembarque de invasores vindos de Palhoça, usando pedras para barrar a invasão. A escritora Jane brinca dizendo que a rivalidade entre as duas localidades nasceu dessas circunstâncias.
Após a palestra, mediada pelo professor Marcondes Marquetti, houve o lançamento do segundo volume do livro Algumas de tantas mulheres de São José, das próprias palestrantes. A obra destaca mulheres que participaram e participam da política josefense, além de lideranças em diversas áreas de atuação.
No próximo dia 18 — véspera do dia de São José — o livro será lançado no Museu Histórico de São José Gilberto Gerlach, na Praça Arnoldo Souza, Centro Histórico, a partir das 18 horas.
[Crônica LIII/2026]
