28 de outubro de 2025

Uma visita imperial à Villa de São José

Por José Carlos Sá

Casal imperial na época da visita a São José (Ilustração de 1843, de autor desconhecido)

Em um mês de outubro, como este em que estamos vivendo — mas há 180 anos — a distante Província de Santa Catarina estava em festa.

O casal imperial — D. Pedro II e a esposa, Tereza Cristina, — esteve em visita entre os dias 12 de outubro e 9 de novembro de 1845, acompanhado por uma grande entourage. Com agenda lotada, D. Pedro II passou duas vezes pela Vila de São José.

Procurei alguma programação oficial para marcar essa data em São José e nada encontrei. Em Santo Amaro da Imperatriz, onde o casal foi tomar banho nas fontes termais, estão previstos eventos nos dias 29 de outubro, 1º e 2 de novembro.

Tendo como única fonte o jornal O Relator Catharinense, criado especialmente para cobrir a visita do Imperador à Província, dou aqui minha versão de como foi a passagem de D. Pedro II por São José.

A primeira visita

Desembarque do Imperador Dom Pedro II e da Imperatriz Dona Tereza Cristina na Ilha de Santa Catarina – Vicente Pietro/1845 (Reprodução)

Pedro II desembarcou em São José no dia 20 de outubro, acompanhado por D. Tereza Cristina, pelo ministro do Império (2º Visconde de Caravelas), pelo presidente da Província (Barão de Tramandaí), pelo senador José da Silva Mafra, pelo deputado Jerônimo Francisco Coelho, pelas damas da Imperatriz (Isabel Cristina de Beauenaire e Leopoldina Izabel Veras de Figueiredo), além dos oficiais da Casa Imperial.

A comitiva foi recebida pela Câmara Municipal e seguiu para a igreja, entre duas alas formadas por meninas elegantemente vestidas, sob um pálio levado pelos vereadores “trajados à Corte, com capas bandadas de cetim branco”.

Na igreja, o vigário entoou o hino Te Deum Laudamus (“Nós te louvamos, Deus”), seguido de um “eloquente e bem traçado discurso”. O repórter do Relator informa que o padre foi muito cumprimentado pela beleza da fala e pelas imagens comoventes que usou ao comentar o 1º Livro dos Reis, verso 24: “E Natã lhe perguntou: ‘Ó rei, meu senhor, por acaso declaraste que Adonias te sucederia como rei e que ele se assentaria no teu trono?’”

Pedro doou à Igreja Matriz de São José “a esmola de três contos de réis para os reparos na mesma Igreja” — não sei se tocado pela homilia ou pelo estado físico do templo.

Aparência atual do Solar dos Neves, onde D. Pedro II recebeu a população para o beija-mão – Rua Getúlio Vargas, 3107 – Centro Histórico de São José (Foto JCarlos / Edição Fotor)

Da igreja, a comitiva seguiu para a residência do coronel Joaquim Xavier das Neves, onde a população josefense e visitantes da serra e de outras localidades formaram filas em frente ao Solar dos Neves — transformado em Paço Imperial — para o “beija-mão” e outras homenagens ao monarca.

O coronel Neves foi responsável pela melhoria da estrada entre São José e as Caldas de Cubatão (hoje Santo Amaro da Imperatriz), empregando mil e duzentos homens numa força-tarefa que consertou pontes e plantou árvores ao longo do percurso. Por esse e outros serviços, foi agraciado por D. Pedro com o grau de oficial da Imperial Ordem da Rosa — condecoração entregue em solo josefense.

Após o jantar — “delicado e abundantemente servido” — a comitiva iniciou o retorno à Vila de Desterro, indo a cavalo até a Praia Comprida, onde assistiu a uma corrida de cavalos e laçamento de bois “à moda do Sul”.

Depois das exibições, D. Pedro seguiu para o Estreito, onde embarcou nos barcos da frota imperial para atravessar a Baía Sul. Em toda a extensão da estrada, entre a Praia Comprida e o Estreito, havia súditos saudando Suas Majestades, seguidas por uma tropa militar e mais de 200 moradores da vila.

Crismas em profusão

Enquanto D. Pedro II cumpria agendas em Desterro e nas freguesias da Ilha de Santa Catarina (o mau tempo impediu que visitasse São Miguel da Terra Firme, hoje Biguaçu), outro membro da comitiva executava um programa paralelo.

O bispo Capelão-Mor, D. Manuel do Monte Rodrigues de Araújo, Conde de Irajá, seguiu para São José para administrar o Santo Sacramento da Confirmação — a crisma.

Segundo o Relator Catharinense, a primeira cerimônia ocorreu no dia 18 de outubro e houve tanta demanda que o bispo precisou de muita paciência para atender a todos. No retorno a São José, a procura não foi menor, e a cerimônia precisou ser repetida nas noites seguintes, “[estando o bispo] procurando seguir os ditames do Divino Mestre e imitar a conduta de Seus Discípulos”, conclui o redator.

A segunda visita

Programação de eventos relativos à visita de D. Pedro II em Santo Amaro da Imperatriz (Reprodução)

No dia 29, D. Pedro e comitiva passou novamente por São José, com destino a Caldas do Cubatão. Ao desembarcar no trapiche, encontraram à espera “a Câmara Municipal com o pálio, o coronel Neves e muitas outras pessoas”. O imperador dispensou o pálio e seguiu para a casa do coronel, acompanhado por uma rusma de povo, sob uma chuva de pétalas de flores.

Em Florianópolis haverá exposição no local onde a Família Imperial se hospedou quando visitou a Província de Santa Catarina (Reprodução)

Aguardava as “augustas majestades” um almoço, do qual participou o bispo capelão-mor, ainda na vila crismando o povo. Às duas da tarde, após a lauta refeição, a comitiva tomou as cavalgaduras e seguiu em direção às fontes termais — na minha opinião, o principal objetivo da viagem imperial.

Ainda dá tempo de que alguma cerimônia relembre a passagem de D. Pedro II por estas paragens. Espero que a Secretaria de Cultura da prefeitura — responsável pelo Museu Histórico, onde há a réplica do trono usado pelo imperador no beija-mão — se manifeste.

Ou a Câmara Municipal (mesmo dispensando o pálio) ou uma escola, ou os escoteiros, qualquer pessoa…

[Crônica CCXXXVIII/2025]