Enquanto conversávamos, percebi que meu interlocutor lançava olhares insistentes para a mesa de jantar, de onde havíamos saído há pouco. Ela estava limpa, arrumada, com um centro de mesa e um vaso de vidro preto-fosco.
A conversa seguia, mas algo ali o incomodava. Olhei na mesma direção e, do meu ângulo, não vi nada errado. Talvez uma sujeirinha esquecida, ou falta de simetria entre a toalha, o enfeite e as bordas da mesa. Há quem goste de composições milimetricamente arranjadas.
O desconforto transbordou. Ele se levantou, foi até a mesa, afastou o jarro, retirou a peça do jogo americano — aparentemente o que o incomodava — e colocou no armário da cozinha. Depois, em voz alta, perguntou à esposa onde estava guardado “o tapetinho”. Ela não entendeu. Ele explicou: aquele rústico, feito em tear manual. — Está na segunda gaveta! — gritou ela lá de dentro.
Aliviado, ele se sentou novamente, com um sorriso de vitória nos lábios, pronto para retomar a conversa interrompida por toda aquela encenação que, até então, me escapava.
Flashback
Concluímos o assunto descontinuado e ele disse:
— Há umas três semanas, a Fulana, que esteve hospedada aqui, colheu umas flores silvestres e, na falta de um vaso, pegou uma garrafa de espumante vazia, lavou por dentro, colocou as flores e pôs na mesa.
Fez uma pausa dramática.
— Eu fiquei olhando aquilo… Uma garrafa de champanhe, de espumante, sei lá de quê, com rótulo ainda, servindo de vaso! Que coisa brega, que coisa ridícula, que coisa… ah. Nem tenho vocabulário pra aquilo.
E o pior, Zé, é que aquela “coisa” foi levada para a nossa outra casa. As flores na garrafa com rótulo… Foi aí que me lembrei deste vaso aí — e apontou para a mesa — que estava lá em casa sem função. Trouxe ele pra cá pra que não se repita mais aquela cena lamentável.
Foi então que entendi o que o incomodava. A peça do jogo americano não “harmonizava”, como se diz. O tampo da mesa, feito com madeira de demolição, e o vaso preto-fosco pediam uma peça também artesanal.
O vaso preto-fosco
O vaso é de vidro. Originalmente, era vermelho encarnado — cor de sangue, de carne crua — e talvez por isso a antiga dona, num momento de desapego, o colocou na calçada para “doação”. Meu amigo o pegou sem propósito específico, atraído pelo formato, não pela cor.
Em casa, depois de estudar a peça por todos os ângulos, decidiu pintá-la. Optou pelo preto-fosco, também a única tinta disponível. A nova roupagem deu presença ao jarro rejeitado.
Faltava uma destinação para o receptáculo, que ficou num canto, juntando poeira — até que a dona da casa foi homenageada com flores silvestres numa garrafa de champanhe ainda com rótulo…
Legenda: Uma tensão estética e simbólica resolvida (Foto JCarlos)
[Crônica CCXXXII/2025]

