Terminei de ler um livro em que o autor compila os crimes mais horripilantes do “facínora” Lampião e seu bando, nos 20 anos em que perambularam pelo sertão nordestino — entre Pernambuco, Alagoas, Bahia, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.
O objetivo da obra é provar que o capitão Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, não foi herói nem defensor dos pobres e oprimidos, como a esquerda brasileira gostaria que todos acreditassem. Essa requalificação do cangaceiro como paladino teria sido iniciada nos anos 1930 por outro capitão, Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro.
A lista de crimes atribuídos a Lampião e seus cabras é extensa e contempla praticamente todo o Código Penal Brasileiro — além de alguns que talvez nem estejam previstos no direito criminal.
Para quem já leu a vasta bibliografia sobre o ciclo do cangaço, como eu, não há grandes novidades. Mas encontrei uma passagem da qual não me lembrava: “(…) matou sadicamente um de seus homens, que o ofendera, obrigando-o a comer um quilo de sal;(…)”. O trecho é atribuído ao historiador britânico Eric Hobsbawm, autor do livro Bandidos, que também aborda outros “bandidos sociais”, tendo Robin Hood como arquétipo.
Uma pesquisa rápida mostra que o “quilo de sal” vira uma xícara — quantidade igualmente letal.
Só uma colher de sopa
Ao ler sobre o sal que Lampião teria imposto ao cabra como punição por reclamar da comida insossa, lembrei de um caso recente, narrado por um conhecido.
Segundo ele, o filho de uns vizinhos se envolveu com o tráfico de drogas. Ficou encarregado de um ponto de vendas e atendia a clientela do entorno. Tudo ia bem até que esse “gerente de boca” começou a atrasar os repasses do dinheiro para o traficante.
As ameaças viraram surra, e o “avião” foi parar na UPA com ossos quebrados, clavícula fora do lugar e escoriações gerais. No prontuário, claro: “queda na escada”.
Com ajuda dos pais — que recorreram a agiotas — a dívida foi paga e o rapaz ganhou mais uma chance. Meses depois, reincidiu: gastou o dinheiro do patrão numa festa de aniversário.
Levado à presença do chefe, pediu desculpas e fez promessas. Em seguida, recebeu a ordem: comer uma colher de sopa de cocaína. Resistiu, mas para toda resistência há uma força maior. Morreu de overdose.
A família não acreditou. Diziam que, embora vendesse, ele não usava. Mas protestar para quem?
Em ambos os casos — o do cangaceiro e o do varejista do tráfico — o consumo de sal foi fatal: cloreto de sódio e sal cloridrato, respectivamente.
[Crônica CCXXXI/2025]

