13 de outubro de 2025

A tempestade e o show a que não fui

Por José Carlos Sá

Pela janela via a chuva e cantava “Fullgas” (Imagem gerada por IA Copilot / Editada com Photoroom / Fotor / PPT BN JCarlos)

Na semana passada, procurando algo para ouvir enquanto escrevia a crônica do dia, encontrei uma gravação da Marina Lima para o Acústico MTV, de 2003. Ajustei os fones, deixei tocar em surdina e comecei a trabalhar. Mas o que a música fez, na verdade, foi atrapalhar.

Explico.

Quando a Marina tocava uma das muitas músicas de que gosto, eu saía da sintonia do texto e entrava na canção — acompanhando, cantando ou, quando não sabia a letra, batendo o pé no compasso da melodia.

Também me lembrei de um episódio que aconteceu comigo em São Paulo, há 25 anos. Fui à capital paulista a serviço e vi nos jornais que, naquela noite, seria a estreia de um show da Marina Lima. Ela estava afastada dos palcos e dos estúdios há muito tempo, tratando de uma depressão, e voltaria a se apresentar com trabalhos inéditos e os sucessos já consagrados.

Cheguei ao hotel — estava hospedado no bairro Pinheiros — e verifiquei que o local do show era relativamente perto. Tomei banho, me vesti e desci à recepção para chamar um táxi. Só ao desembarcar do elevador percebi que caía o maior temporal. Era chuva pré-diluviana, daquelas que nem Noé encararia com tranquilidade.

Desconfiado, perguntei ao porteiro se, pela experiência dele, aquela chuva iria passar logo. O sujeito fez uma cara desanimada e respondeu:

— Doutor, essa chuva não passa tão cedo. Se o senhor me permitir uma sugestão, aproveite o nosso restaurante, peça um vinho, o jantar e depois vá dormir.

Aceitei o conselho com pesar.

No dia seguinte, ao ligar a tevê no noticiário, vi o estrago que a chuva fez na cidade. Dezenas de árvores caídas — inclusive na rua do hotel —, bairros sem energia elétrica, ruas alagadas e, pelo menos, uma pessoa morta pela enxurrada. Soube depois que o homem tentou atravessar uma trincheira, o motor do carro morreu, ele teve dificuldades para sair do veículo e acabou afogado.

A última parte da história foi quando desci para tomar café, por volta das sete horas, e encontrei meu chefe. Íamos embarcar às 11 horas no aeroporto de Guarulhos e sugeri irmos embora logo, pois o trânsito estava complicado.

Ele respondeu que estava cedo, além disso, eu era muito “avexado” e tinha mania de horário. Disse que era bobagem ir àquela hora para o aeroporto e ficar lá esperando. Fiquei calado, mas depois do café busquei minha mala, fiz o check-out e aguardei na recepção lendo o jornal.

Não demorou e o chefe apareceu afobado. Acho que viu na tevê a situação do trânsito e pediu que eu chamasse o táxi enquanto ele fechava a conta.

O trânsito estava completamente parado e, quando chegamos ao aeroporto, o check-in da companhia aérea já havia sido encerrado. Por uma razão que não sei explicar, a funcionária da TAM nos aceitou e mandou que corrêssemos para a sala de embarque, garantindo que cuidaria do despacho das bagagens.

Já embarcados e recuperando o fôlego, recebi o agradecimento do chefe com a frase:

— Desta vez você tinha razão em ser pontual!

[Crônica CCXXIII/2025]

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Acústico MTV Aeroporto de Guarulhos Bairro Pinheiros Marina Lima São Paulo TAM 

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