
O padre Perácio pediu a Deus que recebesse aquela alma, apenas da boca para fora (Imagem criada por IA Copilot)
O padre Perácio era responsável por cerca de 250 fiéis espalhados pelas redondezas da Vila Pouca, um lugar a 70 quilômetros da paróquia de Santo Aquilino, acessível apenas a pé ou no lombo de um burro bom de sela.
As missões paroquiais deveriam ser mensais, mas o padre adiava o quanto podia. Quando a demanda por batizados, casamentos e visitas a enfermos se tornava incontornável, pedia emprestado um burro e seguia morro acima, morro abaixo, rezando e resmungando numa viagem de um dia e meio para ir — e outro tanto para voltar.
Na Vila Pouca, hospedava-se num cômodo nos fundos da capela, mantida limpa por dona Orlinda, zeladora voluntária e também encarregada de anotar os pedidos dos fiéis e enviá-los ao padre por meio de um portador. Orlinda era, além disso, guardiã dos segredos da comunidade — não por confidência, mas por uma rede de informantes que não deixava escapar nenhum mexerico.
Quando o feitor da fazenda Jaboticabeira apareceu na casa paroquial puxando um cavalo selado, o padre Perácio teve um mau pressentimento. O homem tirou o chapéu e disse: — Donana mandou buscar o senhor pra dar extrema unção ao coronel Bartolomeu. É pra ir agora. Vou esperar lá fora.
Sem alternativa, o padre chamou o sacristão para preparar a bagagem: paramentos, acessórios, roupas e objetos pessoais. Seguiu viagem com o mensageiro, pensando em como faria a encomendação da alma do futuro defunto.
O coronel Bartolomeu era dono das terras onde se ergueu a Vila Pouca. Conhecido como cruel, avarento, violento e injusto. Perácio estivera com ele duas ou três vezes, sempre bem tratado — até com certo exagero — mas saiu de perto assim que pôde.
Chegou tarde demais. O coronel havia morrido três horas antes. A viúva e os filhos receberam o padre com cortesia e insistiram para que ele ficasse hospedado na sede e celebrasse, no dia seguinte, a missa de corpo presente e a encomendação da alma. O sepultamento seria ali mesmo, na fazenda.
Cansado da viagem, Perácio aceitou. Recolheu-se, inquieto. Como encomendar uma alma sebosa ao Pai? Folheou o livro Celebração das Exéquias de ponta a ponta e não encontrou nenhuma oração que se adequasse à ocasião.
Como pedir a Deus por alguém que fez tanto mal? E como não se comprometer diante do Altíssimo — e dos parentes do morto, que certamente esperavam palavras piedosas?
Depois de uma noite em claro e uma breve visita ao velório, o padre chegou a uma conclusão: pediria perdão a Deus por sua própria alma antes de iniciar a cerimônia. Lembraria que Deus perdoa tudo e todos, e que ele, Perácio, era apenas um sacerdote — sem direito de julgar em nome do Pai.
A missa foi celebrada conforme o ritual. O padre transferiu ao filho mais velho a responsabilidade de falar bem sobre o coronel. À beira da sepultura, na hora de encomendar a alma, leu a oração em voz baixa e trêmula — que todos entenderam como emoção.
Após o ato cristão, foi visto recitando o Ato de Contrição, batendo no peito: — Por minha culpa, por minha culpa, por minha tão grande culpa…
Hoje, aos 95 anos, o padre Perácio aguarda a morte. E por causa daquele episódio, tem certeza de que irá direto para o inferno — ocupando o lugar que deveria ser do coronel Bartolomeu, em nome de quem pediu a Deus que perdoasse e recebesse a alma no céu.
[Crônica CCXI/2025 – Este texto faz parte do Projeto Vila Pouca – Em desenvolvimento]
