
Julinho sonhava com uma salva de tiros. Só não contava que seria no próprio velório (Imagem gerada por IA Copilot / Edição IA IloveIMG e BN PPT JCarlos)
Julinho de Nenê virou bandido por escolha. Tinha vergonha das profissões dos pais — e quis ser mais.
Seu Tiví (apelido completo: “Bem-te-ví”) era dono de um boteco pé-sujo nas imediações da Vila Palmira, a maior zona de prostituição da Grande Florianópolis até os anos 1980. O apelido vinha do hábito de assobiar tão bem que confundia os próprios pássaros. Dona Nenê era doceira e confeiteira, requisitada para festas e casamentos.
Apesar das dificuldades, os três filhos tiveram todas as condições de estudar. Mas Julinho de Nenê, ao concluir a oitava série, se juntou a uma turma ruim, numa favela. Logo estava tendo problemas com a polícia — para tristeza da família.
Ainda criança, viu pela televisão o funeral de um chefe de Estado e ficou impressionado com a salva de tiros em homenagem ao morto. Guardou aquela imagem e sonhava com ela. Ao acordar, ficava pensando no significado do sonho recorrente. Concluía sempre: nunca seria alguém tão importante a ponto de merecer tal honra.
Anos depois, numa disputa por algumas bocas de fumo, Julinho de Nenê comandou o ataque à facção rival. No tiroteio, o chefe da outra gangue foi baleado e morto. Julinho passou a ser jurado de morte pelos sobreviventes.
Semanas depois, ao sair da casa de uma das namoradas, caiu numa emboscada. Os seguranças o levaram ao hospital e impediram que qualquer informação sobre seu estado fosse divulgada. Mais tarde, eles mesmos espalharam a notícia de que o chefe havia morrido em decorrência dos ferimentos.
Alta madrugada, apenas Dona Nenê, um irmão e dois amigos de infância velavam o corpo de Julinho de Nenê na sala da casa, quando dois carros pararam na porta. Deles desceram oito homens armados de fuzis. Um deles se aproximou do caixão, conferiu se era Julinho que estava lá, deu um passo atrás e fez um sinal positivo para os colegas.
Todos descarregaram suas armas no corpo do defunto. As balas estraçalharam flores, madeira e o conteúdo do caixão — para desespero dos familiares.
Sem querer, Julinho de Nenê ganhou sua salva de tiros. Justo como sonhava.
[Crônica CCVIII/2025]
