10 de setembro de 2025

Interdição conjugal

Por José Carlos Sá

Em edição centenária do Alto Madeira, encontro um anúncio e viajo nele (Reprodução)

Folheando antigas edições do Jornal Alto Madeira, divertia-me com anúncios, notas sociais e policiais, quando me deparei com um recado publicado na seção “Ineditoriais”, destinado ao comércio e demais prestadores de serviços de Porto Velho — então pertencente ao Estado do Amazonas. Com redação atualizada, dizia:

“AVISO — De hoje em diante não me responsabilizarei por qualquer dívida contraída por D. Esther de Younge. Porto Velho, 25 de agosto de 1917. A. F. Younge”

Fiquei curioso com o motivo do desentendimento entre Mr. e Mrs. Younge (uso os pronomes ingleses porque o sobrenome “Younge” é de origem britânica). O que teria levado o senhor A. F. Younge a interditar publicamente os gastos da esposa?

Porto Velho, em 1917, era pouco mais que uma vila surgida ao lado do complexo ferroviário da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no meio da floresta amazônica, à margem direita do Rio Madeira — que, junto à ferrovia, era a única via de acesso ao lugar.

E meu pensamento voa.

O comércio foi avisando que o sr. Younge não se responsabilizava pelas dívidas da esposa (Imagem gerada por IA Bing/GPT-4)

Seria Mrs. Esther uma perdulária contumaz? Uma acumuladora de utensílios de cozinha como separadores de gema, descaroçadores de azeitona ou pinças para retirar talos de morango? Cliente assídua das lojas de tecidos e cosméticos de Manaus (a ‘metrópole’ mais próxima) ou de Belém, cujos produtos chegavam pelos vapores Rio Machado, Rio Jamary, Satellite, Matto Grosso ou pelo paquete Rio Curuçá, que subiam o Madeira?

Ou será que a dona Esther pendurava na conta do marido compras de “bebidas finas de todas as qualidades nacionais ou estrangeiras”, além das cervejas X P. T. O., Antarthica e Brahama, que a Casa Sarah oferecia aos clientes — em ambiente animado por concertos noturnos com o quarteto da casa?

Se foi essa última hipótese, talvez esteja aí a resposta que eu especulava. A Casa Sarah, com o slogan “Botequim de primeira ordem”, ficava na Rua da Palha, onde se concentravam o comércio incipiente e a zona boêmia da futura capital de Rondônia.

Era também na Rua da Palha que se registrava a maior parte das ocorrências policiais, geralmente motivadas pela ingestão de bebida alcoólica.

Peço desculpas ao casal — senhor A. F. Younge e senhora Esther Younge — se o motivo da discórdia não foi nada disso. Talvez tenha sido algo muito sério, sério o suficiente para levar o marido a pagar um anúncio no Jornal Alto Madeira. Um anúncio que, mais de um século depois, chegou ao conhecimento deste cronista de imaginação fértil.

[Crônica CCII/2025]

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