20 de agosto de 2025

Entre linhas e trilhos

Por José Carlos Sá

Lendo no transporte público. Fotos tiradas do perfil Vi você lendo, do jornalista FernandoPiovezam, no Instagram (Montagem JCarlos)

Li hoje na Folha uma matéria muito interessante: um jornalista que fotografa pessoas lendo em lugares barulhentos, onde não há as mínimas condições para uma concentração adequada.

Na reportagem “Perfil no Instagram publica ‘flagras’ de usuários do transporte público em momentos de leitura”, a repórter Adrielly Souza conta como surgiu a ideia do também jornalista Fernando Piovezam, que registra leitores — com livros em papel ou e-books — no metrô, nos trens e até na escada rolante. Após fotografar, Piovezam pede autorização para publicar a imagem em seu perfil no Instagram, onde cita o nome do livro e faz uma pequena resenha.

A intenção dele — diz a reportagem — é homenagear os leitores que, como o próprio Fernando, “sofrem no transporte público, porque às vezes as pessoas estão esmagadas, apertadas, mas continuam lendo. Acho isso incrível”, disse.

No caos

No vagão lotado, ele não se move — exceto pelos olhos (Imagem gerada por IA Copilot/Microsoft)

Me identifiquei com o assunto, pois eu mesmo fui praticante dessa arte — é arte, sim! — da “leitura no caos”, como eu chamava minha excentricidade.

Nossa família morava longe do meu local de trabalho, e eu usava o transporte ferroviário, chamado “Subúrbio”, onde sacolejava, era amassado e pisado, mas não largava o livro.

Depois, como passageiro de ônibus, continuei lendo bastante. Mas o meu maior desafio era ler na faculdade, na sala de aula, quando o professor faltava ou se atrasava. Esse aí, sim, era só para os fortes.

Em uma das viagens que fiz de Porto Velho a Belo Horizonte, li quase todo um volume de As Brumas de Avalon. Depois que cheguei em casa e visitei quem tinha de visitar, ao invés de descansar, passei a noite lendo o restante do livro.

Hoje, nem penso em ler no ônibus. Além de ficar tonto, minha retina pode descolar — já que estou com a data de validade vencida. Leio na poltrona ou na cama, de preferência com o radinho tocando ao lado.

Ler é bom. E em qualquer circunstância.

[Crônica CLXXXVI/2025]