
Os crânios de Lampião e Maria Bonita chegaram até a USP (Montagem sobre foto de Cecília Bastos/Imagens USP por IA Copilot/Fotor/Photoroom/IloveIMG e BM JCarlos)
Soube pelo portal G1 que o casal de cangaceiros Lampião e Maria Bonita ainda não conseguiu descansar — mesmo depois de quase 90 anos mortos. A reportagem conta que os crânios do “Rei” e da “Rainha” do cangaço serão reconstruídos por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) para serem destinados a um museu.
Até aí, nada demais. Museus estão cheios de restos mortais de figuras históricas, sejam heróis ou bandidos. O que me chamou atenção foi a trajetória das cabeças desde que foram separadas dos corpos, na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, em Poço Redondo (SE).
A força volante comandada pelo tenente João Bezerra da Silva surpreendeu o bando de Lampião e matou quase todos os que estavam acampados. Depois, os soldados decapitaram onze cangaceiros — mortos ou quase — e levaram as cabeças como troféus, para resgatar o prêmio de 50 contos de réis.
As cabeças foram levadas para Piranhas (AL), onde foram exibidas e fotografadas. De lá, seguiram para Maceió, e depois para a Faculdade de Medicina da Bahia. O destino seguinte foi o museu do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador.
A família só conseguiu, em 1969, que os crânios fossem sepultados. Mas em 2002, a prefeitura avisou que o cemitério passaria por obras e os restos poderiam se perder. A filha e a neta dos cangaceiros passaram a guardar os crânios em casa — até 2021.
Sem maiores explicações, a reportagem informa:
“Em setembro de 2021, os dois crânios foram encaminhados ao Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.” Ou seja, não se sabe como chegaram lá.
Depois da reconstrução, a ideia é que os restos mortais sejam expostos em algum museu.
Guardando em casa
Ao ler que os descendentes de Lampião e Maria Bonita guardaram os crânios em casa por vinte anos, lembrei de um caso recente, ocorrido em Lisboa, na última semana de julho.
Um estudante de engenharia, de origem nigeriana, matou e decapitou um guineense. Colocou a cabeça na mochila, a levou para casa, caprichosamente lavou, limpou e guardou no freezer.
No dia seguinte, embrulhou a cabeça em papel alumínio, colocou-a novamente na mochila e a entregou na portaria de um hospital público. Foi preso em seguida.
Mi papacito
Outro episódio, dessa vez presenciado por mim. Em 1998, numa viagem a serviço a Cusco, no Peru, fomos levados a um vilarejo no Vale Sagrado dos Incas. Convidados, entramos numa casa de um só cômodo, arredondado, lembrando um iglu.
Num nicho da parede, vi um crânio humano. Perguntei ao guia o que era — achando que fosse réplica, como aquelas que fãs de heavy metal costumam ter. Ele repassou a pergunta ao chefe da família, que respondeu em quéchua:
— Chayqa papaymi! É o pai dele, traduziu o guia.
Agradeci e fui saindo devagarzinho. Não tenho muito jeito com pessoas mortas. Só vou a velórios quando não dá pra escapar. E minha visita é mais rápida que consulta no SUS: vou até o caixão, faço uma oração, cumprimento quem estiver por perto e vou embora.
Não sei como vou fazer quando eu morrer.
[Crônica CLXXX/2025]
