
Novas instalações – em 1920 – da fábrica de gelo da ferrovia, que substituiram o prédio incendiado (Foto do acervo pessoal da profa. Yêdda Borzacov/Governo de Rondônia/Reprodução – Imagem melhorada por IA ILoveIMG)
“RONDÔNIA – 1919 – Só 3 barras de gelo, escondidas num local protegido, escaparam do incêndio que destruiu a fábrica de gelo da Madeira-Mamoré.”
Essa simples notinha, publicada em 7 de agosto na coluna Dia na História, pelo amigo Lúcio Albuquerque no portal Gente de Opinião, atiçou minha curiosidade — que vive à caça de histórias. Fiquei intrigado com o incêndio e, claro, com as misteriosas barras de gelo sobreviventes.
O contexto
Em 1919, Porto Velho era o ponto inicial da ferrovia que ligava o trecho navegável do rio Madeira à fronteira com a Bolívia. O objetivo oficial era cumprir o Tratado de Petrópolis, que previa o escoamento da produção boliviana de caucho (Castilloa ulei) até o Oceano Atlântico, rumo aos mercados europeus.
A ferrovia era uma concessão do governo brasileiro à empresa norte-americana Madeira-Mamoré Railway Co. Ao lado das instalações industriais, crescia a vila que viria a se tornar a capital do futuro Estado de Rondônia.
Para suportar o clima tropical e a distância dos grandes centros, os funcionários da ferrovia contavam com facilidades que os moradores da vila não tinham: residências para diferentes níveis de trabalhadores, hospital especializado em doenças tropicais (com cemitério anexo), lavanderia, cinema, energia elétrica, telefonia, captação de água, porto fluvial, armazéns, uma fábrica de biscoitos e — claro — uma fábrica de gelo.
O incêndio
edição de 7 de agosto de 1919 do jornal Alto Madeira, publicado em Porto Velho, noticiava um incêndio ocorrido dois dias antes, que destruiu completamente “o prédio da fábrica de gelo da Companhia Madeira Mamoré, grande edifício de madeira de três pavimentos, que foi totalmente consumido pelas chamas”.
O repórter descreve que a população de Porto Velho assistiu “apavorada a um espetáculo inédito (…) as labaredas elevavam-se a enorme altura, tingindo de rubro o espaço”. E ninguém — entre o grande grupo de curiosos que se aglomeraram para ver a desgraça alheia (isso sou eu que estou dizendo) — se feriu “quando cinco tubos de amoníaco explodiram com grande largor”.
A matéria informa os prejuízos, as empresas que dividiriam o pagamento do seguro e os nomes dos que ajudaram a combater o fogo.
No meio do texto, finalmente encontrei a informação que me interessava — embora incompleta: “Foram salvos uns 25 blocos de gelo destinados ao [Hospital da] Candelária.”
E fim de papo. Fiquei frustrado. Queria saber como o gelo resistiu naquele ambiente em que tudo virou cinza. O repórter do Alto Madeira que cobriu o sinistro me lembrou alguns colegas da imprensa atual: dão uma informação curiosa, mas não se aprofundam.
O colega aqui do lado, gaiato, lendo o que escrevi, soltou: “Foi assim que surgiu o gelo seco!”
[Crônica CLXXVIII/2025]


