
Dasdô se cadastrou para receber as novidades da indústria farmacêutica (Imagem gerada por IA Firefly_Create/Adobe)
O colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, costuma chamar de “predestinados” aquelas pessoas que recebem um nome no batismo e acabam exercendo uma profissão ou função em sintonia com ele. Dois exemplos clássicos: Dr. Máximo Pinto, urologista; e a senhora Juliana Pizza, nutróloga.
Foi pensando nesse conceito difundido pelo Zé Simão que ouvi — e compreendi completamente — as queixas da minha colega Maria das Dores, também conhecida pela alcunha de “Dasdô”, uma hipocondríaca assumida.
Certa ocasião, ela disse que estava com uma dor no braço direito e que aquilo poderia ser um aviso de futuro AVC ou alguma doença neurológica. As pessoas ao redor logo perguntaram em que ponto exato do braço era a dor: se era dor mesmo ou formigamento, se o desconforto era no braço todo ou localizado.
Ela apontou para o pulso como sendo o foco da dor. Imediatamente “diagnosticaram” que aquilo não era sinal de derrame e que ela provavelmente viveria mais um pouco — e morreria de outro mal. Mas Dasdô não se conformou até consultar o Dr. Google pra saber se corria risco de ficar com a boca torta.
Quase morta
Uma vez, combinaram de dar um susto na Dasdô. Esperaram ela revelar o “sintoma do dia” e uma das ouvintes, já preparada, começou a perguntar detalhes sobre o mal que a colega sentia — enquanto fazia uma expressão de tristeza cada vez mais intensa.
A Dasdô começou a ficar aflita e perguntou: — Você sabe o que estou sentindo? É grave? Estou vendo que sua fisionomia mudou…
— Não… É que minha tia acordou um dia com esses sintomas… e morreu antes das seis da tarde.
A hipocondríaca ficou pálida, quase desmaiou. Logo em seguida contaram que era brincadeira. Por algumas semanas ela se controlou e evitou falar das doenças imaginárias que acreditava ter.
Quase feliz
Dasdores tinha o hábito de passear pelas farmácias do bairro para descobrir com os balconistas quais os novos medicamentos lançados e para que serviam. Sempre saía de lá com um ou dois remédios “infalíveis”.
Hoje, está cadastrada em todas as redes farmacêuticas do Brasil e recebe, em primeira mão, os lançamentos e promoções de medicamentos para doenças que nem sabia que existiam.
Só não diz que é feliz. Porque, para ela, felicidade contraria os princípios da própria vida.
[Crônica CLXXI/2025]
