Considerada a obra que inaugura a literatura em Santa Catarina, Assembleia das aves – Poemeto em quatro cantos foi publicada em 1847, em pleno período eleitoral para preenchimento de uma vaga na Assembleia Geral Legislativa — como se chamava o Congresso Nacional, ou parlamento bicameral, no tempo do Império brasileiro.
O autor, Marcelino Antônio Dutra, cabo eleitoral do deputado Jerônimo Francisco Coelho, dedicou ao correligionário seu “poemeto épico-satírico-alegórico”, exaltando a figura do então conselheiro e candidato à reeleição. O adversário, na disputa, era o juiz e promotor público Joaquim Augusto de Livramento.
A eleição foi acirrada e dividiu a pequena cidade de Desterro, capital da Província de Santa Catarina. Embates se deram nos jornais, nos bares e nas ruas — e nem sempre ficaram apenas no plano das ideias.
Aproveitando a rivalidade entre os partidos Liberal (ou “partido dos judeus”) e Conservador (ou “partido dos cristãos”) — e sua clara simpatia pelo primeiro — Dutra compôs uma sátira em que compara Jerônimo Coelho a um Cisne e o adversário a um Quero-quero.

Cisnes e Quero-queros se enfrentam nas eleições de 1847, em Desterro (Imagem gerada por IA Copilot/Microsoft)
No decorrer do poema, o Cisne surge como uma ave experiente no parlamento e no ministério da Coroa. Em contraponto, um pássaro indaga ao Quero-quero:
“Tu que tens feito Ao Cisne, tão crua guerra, Não dirás que benefícios Já fizeste à nossa terra?”
Lido sem pretensões métricas, Assembleia das aves é interessante por retratar uma disputa política real em uma cidade pequena — ainda que capital da Província — e revelar como a rivalidade doentia entre grupos antagônicos já fervilhava em 1847. Passados 187 anos, cá estamos… pouco mais evoluídos.
E outros poemas
O livro, editado pela Academia Catarinense de Letras e pela Associação Catarinense de Imprensa, reúne obras de Marcelino Antônio Dutra publicadas em jornais de Desterro e do Rio de Janeiro.
Monarquista assumido, o poeta escreve versos em homenagem a D. Pedro I, pela proclamação da independência, e celebra com entusiasmo os aniversários de natalício, aclamação e visita de D. Pedro II a Desterro. Também lamenta com emoção a morte do infante D. Pedro Afonso, filho caçula de D. Pedro II e de D. Teresa Cristina:
“Flor mimosa, peregrina, Que estes vales perfurmaste Tão depressa aos teus jardins? (…) Deixou trono, e cetro d’ouro, Deixou a c’roa paterna, Foi cingir na Glória eterna As c’roas de eterna luz. (…)”
Ainda escreve sobre a Guerra do Paraguai, enaltecendo o soldado brasileiro nas trincheiras; fala de paixões e do amor — inclusive narra, em tom dramático, o “fora” que levou de uma mulher por quem se enamorou:
“(…) – Cuida que do senhor faço algum caso? Está muito enganado!”
A reação do poeta: “Uma frieza Me transpassou o corpo e a alma e tudo! Aterrou-me com este anúncio tenebroso.”
Ao final, um texto sem assinatura — que credito aos editores — traça o perfil do autor: suas fases literárias, os desentendimentos com contemporâneos (em especial com o Arcipreste Paiva, adversário político), e reconhece que Marcelino Antônio Dutra era um poeta abaixo da média. Ainda assim, foi homenageado como Patrono de uma das 40 cadeiras da Academia Catarinense de Letras, por ser pioneiro da literatura na província.
O livro é um bom passatempo. E nada mais.
P.S. Ah, sim! Antes que me esqueça: O “Quero-quero” Joaquim Augusto de Livramento acabou vencendo o experiente “Cisne” Jerônimo Coelho, com 89 votos a 39, para a legislatura de 1848 a 1849.
[Resenha XVI/2025]

