
A estatueta de Hatshepsut tinha estranhos poderes (Imagem gerada por IA Freepik_Pikaso/Photoroom e Edição BN JCarlos)
Escolhi a estatueta em um catálogo de reproduções de obras egípcias. A legenda dizia que era uma réplica de uma das figuras que representavam a faraó feminina Hatshepsut — esposa e meia-irmã de Tutmés II, que reinou entre 1492 e 1479 a.C. — encontrada em sua câmara mortuária. O túmulo, localizado numa fenda de um penhasco, teria sido explorado pelo egiptólogo britânico Howard Carter em 1916.
Gostei mais da figura do que da história da faraó — que deixei para pesquisar depois, quando alguém visse a peça na minha estante e perguntasse o que era. Com esse pensamento, finalizei a compra pela internet.
Quando venceu o prazo de entrega combinado pela galeria de artes, enviei uma mensagem de reclamação. Como sempre, mandaram procurar a transportadora, que estranhou a situação: a encomenda havia saído para entrega dois dias antes. Combinamos que informariam ao entregador o meu telefone, caso ele estivesse com dificuldade de encontrar o sítio onde moro — distante, mas de fácil acesso.
Logo recebi uma mensagem do entregador: no dia da entrega, havia caído da moto e quebrado a perna. Iria pedir a um irmão para levar minha encomenda. Já no fim do dia, veio outra mensagem: novo contratempo, a entrega ficaria para o dia seguinte.
Já aborrecido, me ofereci para buscar pessoalmente e pedi o endereço. No dia seguinte, fui até o local indicado e recebi uma pequena caixa de madeira e um envelope com a nota fiscal e um papel de aparência antiga. Deixei para ver depois, pensando: “Esse pessoal é bom de marketing. Vendem réplicas de escultura egípcia e mandam junto um pergaminho…”
Na volta para casa, meu carro derrapou na estrada de terra e caiu num barranco. Por sorte, foi só um susto. Ainda assim, precisei repousar: machuquei a coluna com o tranco do jipe.
Dias depois, ainda acamado e sem ter o que fazer, peguei a caixa para enfim apreciar minha aquisição, que tanto atraso sofreu até chegar ali.
Abri a caixa com certa dificuldade e desembalei a estátua — envolta em gazes desgastadas, daquelas usadas em ataduras. Imediatamente pensei nas múmias. E, mais uma vez, dei os parabéns aos marqueteiros por manterem o clima misterioso do Egito, das pirâmides e dos faraós.
Quando finalmente peguei a estatueta — com aparência de barro queimado — ela escorregou das minhas mãos e caiu no chão, partindo-se em duas partes, como se tivesse sido serrada com precisão. O mais estranho: do interior oco da escultura saiu uma fumaça azul.
Só me lembro disso.
Não sei como vim parar neste hospital — que, segundo a enfermeira, fica a mais de 300 quilômetros da minha casa. Também não sei explicar como meu corpo ficou coberto de feridas, com pústulas por todo lado.
Acho que aquele pergaminho que veio junto pode conter a resposta.
Quando eu sair daqui, eu leio.
[Crônica CIV/2025 – Texto inspirado em uma notícia publicada na revista Antiquity sobre estudos mostrando que estátuas da faraó foram destruídas para “desativar ritualisticamente os seus supostos poderes sobrenaturais”]
