Era o início da tarde de um domingo quente. Na Cantina do Grasso, ainda se comentava o resultado da briga de galos da noite anterior, realizada ali mesmo, na rinha do galpão dos fundos.
O galo Cuitelo, de Tonho do Ribeirão, derrotou o grande campeão vindo de Gaspar, favorito absoluto, com 100% das apostas a seu favor. O resultado surpreendeu a todos — mais ainda, a atitude de Tonho, que recebeu seu prêmio, guardou o Cuitelo na gaiola, embarcou no fusquinha e foi embora sem sequer pagar uma rodada aos presentes.
Enquanto isso, 10 quilômetros dali, no sítio de Tonho, família e vizinhos escutavam pela centésima vez o relato da luta. Tonho descrevia cada detalhe do embate: como Cuitelo entrou na rinha como perdedor, fingiu medo, recuou para despistar, e num golpe inesperado saltou no pescoço do galo campeão, matando-o instantaneamente.
“O silêncio foi tanto que dava para ouvir as últimas batidas do coração do galo campeão…”, repetia Tonho, enquanto tomava mais uma bicada de cachaça antes de recomeçar sua história.
Na cantina, Alonso da Pedra Grande pediu outra dose de grappa e chamou seu primo Pepe para um canto. — Vamos ao sítio do Tonho! — Fazer o quê lá, Lolo? Você nem é amigo dele… — Quero comprar o galo! — Mas o galo tá à venda? — Vou fazer uma proposta. Voltarei com ele!
Montaram na bicicleta e pegaram a estrada, revezando-se no pedal. A tarde já caía quando chegaram ao portão da chácara. Os cachorros correram para recebê-los, e um menino apareceu para atender. Alonso, sem mencionar seu real interesse, pediu para ver as galinhas. Pepe ia comentar algo, mas foi discretamente cutucado para ficar calado.
Ao atravessar o meio da festa — onde muitos já estavam altos — encontraram Tonho. Ele os atendeu, meio contrariado, dizendo que poderiam ter vindo em outra hora, mas aceitou mostrar as galinhas poedeiras e de corte. Alonso observava o plantel com fingido interesse, até que mencionou querer ver Cuitelo.
Tonho hesitou. Explicou que o galo estava em repouso, recuperando-se da luta, mas Alonso insistiu. Tonho, então, mandou que um menino trouxesse o animal, com cuidado, frisou.
Os olhos de Alonso brilharam ao ver Cuitelo sendo carregado com delicadeza, como um bebê recém-nascido. — Posso pegá-lo? — perguntou, já estendendo os braços.
Elevou o galo até a altura dos olhos, sopesou, e — inesperadamente — o lançou para frente, como se o impulsionasse para voar. Todos ficaram atônitos ao ver Cuitelo descrever uma curta parábola no ar e, ao tocar o chão, permanecer imóvel. Sem vida.
Tonho se lançou sobre o galo e constatou sua morte súbita. Agachado, virou-se para Alonso e, com olhar frio, murmurou: — Ou você faz meu galo voltar… ou você morre.
Alonso mal teve tempo de reagir. A faca brilhou na mão de Tonho antes de cravar no seu pescoço. A expressão de surpresa permaneceu no rosto de Alonso mesmo depois de seu último suspiro.
* Texto inspirado em um release do MPSC sobre a condenação de um homem que matou o outro por causa de um galo de estimação
[Crônica LXXXI/2025]

