Já nos primeiros parágrafos do livro, me identifiquei com Juca, protagonista de O menino analógico, obra autobiográfica do jornalista e escritor Júlio Olivar. Mineiro radicado em Rondônia, como fui até recentemente, Olivar é autor de outros sete livros, entre eles o meu preferido, A cidade que não existe mais.
Juca, apesar de ter irmãos, passava parte do dia sozinho, inventando brinquedos com o que tinha à mão. Também gostava de ler e, através da leitura, viajava pelo mundo. Enquanto ele sonhava com São Paulo, eu era fascinado por Brasília, ainda recém-nascida nas fotos publicadas pelas revistas Manchete e O Cruzeiro.
Outra semelhança entre nós estava nas brincadeiras. Juca tinha sua jabuticabeira, testemunha das histórias inventadas e vividas sob suas sombras. Ali, “cavalos e bois ficavam com dragões e cavalos-alados, porcos e galinhas, carneiros e cachorros, e até dinossauros, todos compartilhando o mesmo espaço em harmonia”.
No meu caso, era uma goiabeira o refúgio. Um dos galhos, paralelo ao chão, transformava-se em meu alazão. Certa vez, enquanto trocava tiros imaginários com bandidos, os aliados deles apareceram na forma de marimbondos. O ataque súbito pôs fim à brincadeira.

O crime perfeito: Juca tocou o sino, mas o fantasma é que ganhou a fama (Ilustra Pablo Mack/Reprodução)
Uma passagem do livro que gostei muito foi o episódio do fantasma. Juca, intrigado pelo boato de que a torre da igreja abrigava uma assombração, resolveu alimentar a lenda. Num dia pouco depois do escurecer — em cidades do interior, todos se recolhem cedo —, ele entrou furtivamente na igreja e, mesmo temendo almas vagantes à procura de rezas, subiu até o alto da torre e tocou o sino.
O som das badaladas reverberou em sua cabeça, mas ele riu ao ver as pessoas saindo de casa para entender o que acontecera. No dia seguinte, contou o feito na escola, mas alguns não acreditaram que fosse ele e mantiveram a versão de que o fantasma da torre havia soado o sino.
Com o autor
Conheci Júlio Olivar em Porto Velho, quando ele ocupava o cargo de superintendente de Turismo do Estado de Rondônia, no governo Confúcio Moura, e eu trabalhava na assessoria da Hidrelétrica Santo Antônio. Além dessa ligação profissional, compartilhamos interesses comuns, como a admiração pelo marechal Rondon.
Olivar esteve à frente de iniciativas importantes, como a instalação do Memorial Rondon em Porto Velho, a restauração do Marco Divisório — que demarcava os limites entre Mato Grosso e Amazonas e foi destruído pelas águas do rio Madeira —, e a homenagem à ornitóloga alemã Emilie Snethlage.
Gostei do livro porque me transportou ao passado, reavivando memórias das brincadeiras da infância. As novas gerações não imaginam o que estão perdendo.


