
Pilotei uma enceradeira que era possuída pelo demônio (Imagem gerada por IA – Copiloto/Microsoft.Com)
“Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”, escreveu Paulo a Timóteo, segundo o Novo Testamento, pois tem pessoas que se submetem a humilhações e ao enxovalhamento público para ganhar míseros trocados. Vemos isso na tevê em programas de auditório dos “sílvio santos” e “faustões” da vida.
Por meras “cinquenta pratas” eu – um cara contido, medroso e bobo até – caí numa dessas pegadinhas do ‘tudo por dinheiro’. Foi assim.
No início da tarde de um sábado, o Renan, um colega dos Correios, me chamou ao parapeito do mezanino onde trabalhávamos e mostrou a senhora da limpeza, que no andar inferior, usava uma enceradeira industrial para lavar o piso e me disse:
– Liquinho (apelido que ele me deu, por me achar parecido com a personagem de um anúncio da Liquigás), eu te dou 50 pratas – taqui, ó – para você ir lá embaixo e segurar aquela enceradeira por um minuto”. E colocou uma nota de 50 Cruzeiros sobre o parapeito.
Eu não estava precisando de dinheiro, mas a ganância de ganhar um trocado fácil embotou o bom senso que eu achava que tinha. Olhei para a mulher passeando pra lá e pra cá com a máquina, numa leveza que lembrava uma bailarina, e aceitei o desafio. “É mole pro Vasco”, pensei.
Desci as escadas e fui até a senhora, que já me esperava sorrindo. Fiquei ao lado dela, que me entregou os punhos da máquina para eu assumir o comando da enceradeira e saiu rapidamente de perto.
Assim que segurei o trem – pensando que era igual à enceradeira Walita lá de casa -, um demônio incorporou no equipamento, que passou a girar em volta de mim, sem que eu conseguisse fazer com que ela me obedecesse. Eu rodava como se estivesse no olho de um furacão e o fio elétrico começou a se enrolar nas minhas pernas, tirando o meu já escasso equilíbrio.
Enquanto eu lutava bravamente com a enceradeira, ouvia as gargalhadas da plateia que assistia, da arquibancada, ao meu fiasco. Foram “horas” de tortura até que a mulher desligou a enceradeira da tomada, salvando minha vida.
Envergonhado, devolvi a máquina endemoniada à sua dona, que parecia estar acostumada a ser cúmplice do desafio. Ela falou, como forma de se desculpar, que o controle da máquina era conseguido fazendo pressão para cima ou para baixo e não lateralmente, como eu fizera.
Aprendi que não é fácil ganhar dinheiro fácil. E ainda ouvi as chacotas de que fui vítima por mais de uma semana.
[Crônica LXXXV/2024]
