Ganhei os dois livros da Marcela. O autor de um e organizador do outro é colega dela no jornal ND, o jornalista Moacir Pereira, um dos mais antigos comentaristas políticos do Estado. O assunto das duas obras são complementares. Não é possível falar da criação da ACI (Associação Catarinense de Imprensa) sem falar do jornalista Altino Flores, que foi um dos fundadores e o primeiro presidente da associação há 90 anos.
Convidado para escrever sobre os 75 anos da Associação, Moacir Pereira foi pesquisar sobre a organização e fundação da entidade em um Brasil sob o comando de Getúlio Vargas, que em 1930 havia liderado um golpe político e assumido a presidência da República. Nos jornais de 1934, Moacir Pereira achou os convites para a reunião de “reorganização” da ACI. Ao encontrar esta informação eu teria dito um sonoro “Uai, se é reorganização, a agremiação já existia!” Moacir deve ter dito algo parecido e mergulhou mais fundo na pesquisa das coleções de jornais antigos, na Biblioteca Pública do Estado, que Moacir descreve como “uma sauna no verão e um freezer no inverno, com as edições dos jornais com páginas destruídas e folhas em altíssimo grau de fragilidade.” Com isso, descobriu-se que a Associação era dois anos mais velha do que se pensava.
A imprensa de Santa Catarina foi iniciada oficialmente em 1831 com a edição do jornal O Catharinense e é esta a outra data que gera discussões por aqui. Jerônimo Coelho, militar e político, ao criar o primeiro jornal da Província de Santa Catarina, fez circular no dia 28 de julho o “número programa”, que hoje chamaríamos de piloto. Mas a data certa do início da circulação do jornal é 11 de agosto. O Dia da Imprensa de Santa Catarina é comemorado em 28 de julho, mesmo sendo considerada a data “errada”.
A Associação Catarinense de Imprensa foi a base para outras iniciativas como o Sindicato dos Jornalistas Profissionais e a Casa do Jornalista – esta abrigando as sedes dos sindicatos dos jornalistas, dos radialistas, e Associação dos Cronistas Esportivos. Antes da ACI houve o Clube da Imprensa em 1902, mas este era meramente recreativo cultural.
Altino

Altino Flores, no destaque, na porta do jornal O Estado, era considerado um demolidor de argumentos contrários aos dele – Década de 1930 (Foto Arquivo Público SC)
A imprensa da pequena Florianópolis, nas primeiras décadas do século XX, era aquilo que se chama de provinciana. Os jornais – a maioria com apenas quatro páginas – traziam muitos anúncios do comércio, proclamas, avisos fúnebres e artigos assinados por advogados, juízes, padres, professores, tratando dos mais variados assuntos.
É nesse ambiente que surge e se destaca como jornalista polêmico, professor e ocupante de importantes cargos públicos Altino Corsino da Silva Flores. Foi membro fundador da Academia Catarinense de Letras, participava do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina; professor da rede pública de ensino; inspetor escolar; diretor de escolas; foi nomeado secretário de Governo (chefe da Casa Civil) do governador Irineu Bornhausen e foi mantido no cargo pelos três governadores subsequentes. Era muito cioso da necessidade de economizar o dinheiro público e é desta época um causo que contam sobre Altino.
No final de expediente, ao sair do palácio do governo, Altino Flores se encontrou com um deputado estadual acompanhado de um prefeito. O deputado pediu para que o secretário autorizasse o abastecimento da viatura do prefeito para ele retornar à sua cidade. A resposta foi um “Não posso” e alegou a exclusividade de atendimento aos veículos que serviam ao palácio. O deputado insistiu, já indo pela argumentação político partidária, o que irritou Altino, que disse: Se o meu pai se levantasse do túmulo e viesse aqui, com um pires na mão, pedir-me algumas gotas daquela gasolina, destinadas a fazer um remédio capaz de ressuscitar minha mãe, eu não dava!!!”
Nascido no arraial de Capoeiras em São José (hoje a região pertence a Florianópolis), formalmente estudou até o ginásio, não concluindo o curso no último ano. Por conta própria passou a ler os clássicos da literatura brasileira, portuguesa, francesa, italiana e alemã. Aprendeu francês lendo livros escritos no original por Balzac, Edmond de Goncourts, Flaubert, Zola entre muitos outros, o que deu a ele uma base ampla e sólida para sustentar os duelos, via artigos em jornais, especialmente sobre literatura. Em um dos duelos literários, sobre um autor francês que escreveu sobre o início da Igreja cristã, Altino debateu com o bispo católico, que ao terceiro artigo abandonou o ringue.
Já bastante idoso, mas ainda lúcido – morreu em 1983 – Altino Flores recebeu um grupo de jovens jornalistas e disse a eles no final do encontro: “Um conselho a mais, não desdenhem a gramática e o dicionário, pois são as fontes onde se encontra a ferramenta para o seu trabalho específico, escrever mal e confusamente é pecado que não se perdoa a jornalista que se preze, aliás, o idioma de um país é a espinha dorsal da sua cultura”.
Os livros José Boiteux, Nereu Ramos, Altino Flores, Alirio Bossle – Os 80 anos da Associação Catarinense de Imprensa e Altino Flores – Fundador da ACI, foram publicados pela Editora Insular, Florianópolis, em 2013 e 2010, respectivamente. Ambos são de autoria de Moacir Pereira, que também organizou o primeiro.

