Uma coisa desagradável é você ouvir conversa de outra pessoa. Escutar, não por vontade própria, mas por que a pessoa usa o celular em chamada de vídeo ou áudio, mantendo o viva voz no volume alto. Essa turma não tem o menor constrangimento de expor a vida dela ou de outro sujeito em público e para uma plateia que não está interessada, muito pelo contrário, no assunto.
Eu atraio este tipo de gente para perto de mim nas viagens que faço. Ao ver criança birrenta ou chorona e gente falando alto ao celular, posso ficar despreocupado, que eles se sentarão perto de mim no ônibus ou avião. É uma regra que, infelizmente, tem poucas exceções.
Fashion
Na viagem para Porto Velho observamos uma mulher que fazia seguidas chamadas de vídeo para os parentes informando que embarcaria em poucos minutos, para onde iria e o que ia fazer. No trajeto da sala de embarque ao avião, atrapalhou os outros passageiros parando para fazer selfies. Já dentro do avião narrou para seus interlocutores os procedimentos que o piloto estava fazendo (“Agora está indo para a pista…” “Vai decolar…”). Logo em seguida mostrava para alguém que estava levando uma Bíblia com uma capa toda brilhante, como uma fantasia de carnaval. Enfim o telefone ficou sem sinal, e ela, falando alto para si mesma, disse: “Agora vou ouvir os Salmos…” e colocou para tocar a música, cantando junto.
Na volta para casa, uma semana depois, por pressentimento, olhei atrás de mim na fila e era a ‘fashion’! Pensei: eu mereço. E não foi diferente da outra viagem.
Cirurgia
No ônibus entre Florianópolis e Curitiba, uma senhora sentou-se ao meu lado, mas vendo que o veículo estava vazio, trocou de poltrona, se estabelecendo do outro lado do corredor. Ato contínuo, começou a fazer e receber ligações de vídeo pelo celular. Eram irmãs, filhos e amigas. Para todos contava que estava indo ao Paraná ficar com os filhos de uma sobrinha que ia se submeter a uma cirurgia e dava o diagnóstico da doença e o procedimento cirúrgico que a parente se submeteria, com uma riqueza de detalhes que os membros do Colégio Brasileiro de Cirurgiões ficariam impressionados. O papo aconteceu por quase toda viagem, pois felizmente, havia lugares em que o celular perdia o sinal. Para encerrar a saga, fez a última ligação quando o onibus entrou em São José dos Pinhais, quando ela pediu para que a buscassem no aeroporto: “Eu vou para sua casa, almoço, depois vou ficar com as crianças da fulana, que já deve ter ido para o hospital…”
Avó frustrada
Além das chamadas de vídeo em viva voz desde o saguão da rodoviária de Curitiba, a minha companheira de viagem buscava a empatia com os outros passageiros falando da própria vida e perguntado pela vida dos outros. Como a viagem era noturna, foram muitas, mas breves as chamadas de vídeo para diversos parentes. uma passageira, com quem ela estava conversando perguntou para onde ela ia. Isso bastou para falar, em detalhes, da vida pregressa: “Vou para Governador Valadares, estava visitando meus filhos que moram em Curitiba. Tenho três filhos. Um trabalha na Câmara de Vereadores, é chefe de gabinete; o outro também é formado e trabalha [não entendi onde]; e a filha, essa não deu para nada, é confeiteira. Está morando com um rapaz, até muito legal, mas ela não quer me dar um neto. Eu sou doida para ser avó. A senhora já é avó? [Recebeu resposta afirmativa] Que benção! Eu queria ser avó…”
Após uma parada para café e já com o dia amanhecendo, a senhora focou o interesse em dois jovens assentados nas poltronas atrás de mim. “Vocês moram onde?” “Trabalham de quê?” “Estão indo para onde?” “Já são casados?” Um era, o outro não. O casado disse a idade dos filhos e a senhora se animou: “Ah! Que benção! São duas crianças!” Ela quis saber quem tomava conta dos meninos. “A minha esposa. Nós moramos nos fundos da casa da minha sogra…” e não conseguiu completar a frase. “Então a sua sogra deve ficar feliz! Quer benção, já é avó duas vezes! E ela ajuda sua esposa com as crianças?” A resposta desconcertou a avó frustrada: “Não senhora. Ela detesta crianças!” E nada mais foi dito até o final da viagem. Felizmente.

