09 de setembro de 2021

Benzendo e desbenzendo

Por José Carlos Sá

Início da manhã de quinta-feira nas proximidades de um posto de combustíveis (Foto Marcela Ximenes)

Esta quinta-feira (9/9) começou com uma ameaça de desabastecimento de combustíveis em todo país, devido às manifestações de caminhoneiros que fecharam várias rodovias e impediram que os caminhões-tanque chegasse até os postos de revenda. O movimento foi uma continuação dos atos realizados em todo o Brasil no dia 7 de setembro, em apoio ao presidente da República.

Presidente Bolsonaro fala para apoiadores na avenida Paulista (Foto reprodução Facebook)

No decorrer do dia foram se sucedendo fatos políticos que deixaram apoiadores e opositores do presidente Jair Bolsonaro desnorteados. Os presidentes do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Luís Roberto Barroso e da Câmara deputado Arthur Lira fizeram pronunciamentos. Um contestando e o outro “passando o pano” no discurso presidencial nas manifestações de terça-feira, respectivamente. Depois teve um Bolsonaro elogiando a China na reunião virtual dos Brics, aquela mesma China que ele insinuou ter criado propositalmente o coronavírus.

Para culminar esse dia de novidades, a Presidência da República divulgou uma “Declaração à Nação” em que Bolsonaro alega ter se excedido no “calor do momento”. E a surpresa maior foi saber que o autor da carta era o ex-presidente Michel Temer, chamado especialmente de São Paulo para dar uns conselhos ao atual inquilino do Palácio da Alvorada.

Me lembrei do livro Sargento Getúlio, do saudoso João Ubaldo Ribeiro, em que a personagem principal, um sargento da Polícia Militar de Sergipe, recebe a missão – última antes de se aposentar – de buscar um desafeto do chefe político dele em Paulo Afonso (BA) e levá-lo para Aracaju (SE). O preso, ao passarem em frente a uma igreja,  faz o “sinal da cruz”, mas Getúlio entende que aquele gesto cristão não valeu nada. Pelo contrário, foi uma blasfêmia. Como o prisioneiro estava com as mãos algemadas, para o sargento, com a mão direita ele se benzeu e com a esquerda se “desbenzeu”.

Foi assim hoje com os reflexos das manifestações de terça-feira: uma mão benzeu e a outra desfez o ato.