Fui ao otorrinolaringologista hoje para uma consulta de rotina. Já não ouço tão bem quanto antes. As orelhas aumentam de tamanho com a idade, mas isso não quer dizer que captam os sons com clareza. Falando claro: a surdez é gradual, acompanhando o envelhecimento.
Enquanto o médico prescrevia os exames que devo fazer e os encaminhamentos burocráticos, me lembrei de um colega jornalista, que conheci em Belo Horizonte.
Celius Aulicus Gomes Jardim, o General (tinha este apelido por ter assinado uma coluna como General da Banda, no jornal O Binômio), era um jornalista muito respeitado em Minas Gerais. Foi repórter de vários jornais mineiros, além de ser autor de livros de crônicas e de histórias infantis. Membro antigo do PCB (Partido Comunista Brasileiro, o Partidão), o General foi chamado para prestar explicações no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).
Gozador, o jornalista fez piadas com as perguntas dos policiais que, feridos em suas autoridades, deram um “telefone”* no depoente, que ficou, a partir daquele momento, completamente surdo.
Liberado, por não terem encontrado nenhum crime que pudesse ser atribuído ao velho jornalista, o General seguiu a vida na redação do jornal Estado de Minas.
Eu o conheci em um Seminário de Jornalistas, realizado em Belo Horizonte e fiquei no mesmo grupo de trabalho que o General. Eu, recém formado, olhava com admiração para o veterano e não ousava dizer nada, por saber que ele não tolerava colegas falando tolices. Em um intervalo, criei coragem e perguntei sobre a prisão dele. Depois de contar um pouco da história, começou a rir.
Fiquei esperando e ele completou: – A prisão teve um lado bom. Fiquei surdo e tenho que usar um Gradiente** em cada ouvido. Nas noites em que saio do jornal e bebo umas cervejas com o pessoal, quando chego em casa a “Generala” começa a reclamar. Eu peço que ela espere para que eu aumente o som dos aparelhos [de audição] e os desligo. Só vejo a boca dela mexendo e não escuto nada!” E continuou a rir como um menino que contasse uma travessura.
Celius Aulicus nasceu em Diamantina em 28 de outubro de 1918 e morreu em Belo Horizonte em 05 de maio de 1994.
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