A leitura foi propositalmente vagarosa. Várias vezes a interrompi para me aprofundar em algum episódio na internet, pesquisar sobre alguém citado ou verificar nos mapas os locais a que Laurentino Gomes se referia. Também voltei e reli parágrafos e páginas de Escravidão – Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de dom João ao Brasil – para fixar bem o que estava sendo narrado. Em alguns capítulos – como aconteceu no Volume I – é difícil imaginar a maldade com que os senhores – usineiros, fazendeiros, mineradores – tratavam os escravizados. Alguns tinham comportamento desumano para com os outros humanos, considerados por eles como criaturas inferiores até aos animais.
A escravidão é um fenômeno histórico e social, e se não houvesse estudos e pesquisas enfocando o assunto, como a trilogia Escravidão, seria muito difícil descortinar todos os seus aspectos, sejam econômicos, sociológicos, religiosos ou filosóficos. As desculpas para manter o sistema de escravidão nos diversos países/colônias em que foi implantado eram as mais discutíveis possível, já naquela época, entre os séculos XVII e XIX.
Inconfidência Mineira
A Inconfidência Mineira se levantou contra a cobrança de impostos sobre o ouro extraído das Minas Gerais, mas empacou sobre a questão dos escravizados. Todos os inconfidentes tinham escravos e não queriam abrir mão deles. Pode parecer contraditório que um grupo de intelectuais inspirados nos Iluministas franceses queriam proclamar a República, mas não queriam abolir a escravidão.
Já comentei aqui antes alguns trechos do livro – a origem de cidades brasileiras a partir da implantação de “registros” ou mesa de renda da Coroa Portuguesa e as irmandades religiosas criadas para ajudar escravizados, forros e seus descendentes em caso de necessidade – e fiquei sabendo mais, como por exemplo, as diferenças entre o sistema de alforrias no Brasil e nos Estados Unidos. Enquanto aqui a alforria era adquirida com o dinheiro conseguido em poupança pelo trabalho extra (venda de produtos cultivados pelos escravos em suas horas de folga ou prestação de serviços como barbeiro, ourives, e etc.), na América do Norte, os escravizados, para conseguir comprar sua libertação, precisavam pagar uma taxa em dinheiro para dar início ao processo, que seria analisado na assembleia legislativa. Caso fosse aprovada, o liberto deveria deixar o estado imediatamente e não voltar mais.
Capitães do mato
Uma instituição criada no sistema escravista no Brasil (e em alguns outros países) foi o Regimento dos “capitães do mato”, que tinha o objetivo de caçar, prender e devolver a seus donos os escravos fugidos. Essa atividade era bem concorrida devido às recompensas pagas pelo fugitivo vivo ou morto. A Coroa Portuguesa – interessada em fortalecer a coleta de impostos para se manter e tranquilizar os donos de escravos – criou uma estrutura hierárquica parecida com a das tropas regulares: soldado do mato, cabo do mato, capitão do mato, sargento-mor do mato, capitão-mor do mato. Vale ressaltar que os capitães de mato e suas tropas, geralmente, eram escravos ou ex-escravos.
Abolição

A maioria das vezes os escravos eram castigados por outros escravos, como na gravura de Rugendas (1802/1858)
O sistema de punições aos escravizados que cometessem alguma irregularidade ou fugissem, era regulado por legislação específica, que fixava a quantidade de chibatadas, marcação com ferro quente, corte de uma orelha e até a morte para alguns casos. Mas, sem fiscalização em um país tão grande, os proprietários e feitores faziam o que quisessem. Poucos casos de maus tratos chegaram à Justiça, mas os processos não resultaram em nada.
Em 1888 a princesa regente Isabel aboliu formalmente a escravatura no Brasil e os ex-escravos foram deixados por conta própria. Esta falta de uma assistência perdura até hoje, em que a população afrodescendente sofre com as desigualdades sociais, culturais e econômicas.
Vamos aguardar agora o volume três de Escravidão, que falará sobre o movimento abolicionista em um Brasil ainda em formação e a Lei Áurea.


