Para concluir este assunto, apresento mais dois colegas da turma 1/76, de quando servi à Força Aérea Brasileira.
O 010 se chamava Geraldo, mas era mais conhecido como Papagaio, cidade do interior de Minas Gerais, de onde ele foi para Belo Horizonte. O 010 era o caipira típico, estereotipado nas piadas de mineiro. Falava com um sotaque carregado e muitos termos que ele usava eu desconhecia, e olha que eu também tenho origem do interior de Minas. Mas cada região tem as suas características.
Nas primeiras aulas de Ordem Unida, onde você aprende a marcar, virar a direita, virar a esquerda, fazer meia-volta, cobrir, decorar cada toque da corneta e se mecanizar, o 010 mostrou que não tinha coordenação motora. Ele levava a perna direita à frente e o braço direito também, quando teria que alternar mão direita à frente, perna esquerda à frente. Geraldo ficou de castigo treinando sozinho, mas não ele não conseguia. A solução encontrada foi amarrar barbantes aos braços e às pernas dele, para que aprendesse a marchar cadenciado!
O outro colega, cujo número e nome não me recordo, tinha uma estranha profissão antes do serviço militar. Era motorista de defuntos! Explico: ele transportava os corpos de indigentes, que morriam nos manicômios de Barbacena para uma faculdade de medicina de Belo Horizonte, onde seriam usados nas aulas de anatomia.
Era uma viagem – para mim tétrica – de 172 km, em uma Kombi e sempre à noite. Esse colega diz que amarrava os cadáveres nos bancos, inclusive no banco dianteiro ao lado dele. “Quando eu fazia uma curva os corpos todos tombavam para o mesmo lado… Um dia fui parado pela Polícia Rodoviária. O inspetor acendeu a lanterna e iluminou meus “passageiros” e logo me dispensou dizendo – Parece que esse pessoal está bem cansado, ninguém se acordou… Boa viagem!”
A turma se separou depois de três meses do período de adaptação, indo cada um para sua função. Perdi o contato com todos.

