As aulas da Oficina de Cerâmica Folguedo do Boi de Mamão feito de barro do PAC (Projeto Arte e Cultura Por Toda São José) eram às quintas-feiras e, hoje, fui me despedir de um dos queridos professores. O mestre José Geraldo Germano foi arrebatado ontem pela morte, que, de forma sorrateira e inesperada, usou um mal súbito como álibi para levá-lo.
Conheci o Geraldo quando fiz um freela para o jornal ND sobre o futuro da profissão de oleiro em São José (SC), em dezembro de 2021. Na entrevista, ouvi dele a frase que ficou marcada: “A sensação de extinção da profissão de oleiro é bem presente.”
Depois dessa matéria, ficamos amigos. Ajudei a divulgar as exposições organizadas por ele e, mais tarde, fui aluno da oficina de cerâmica aplicada pelo mestre Newton Souza, com a presença frequente do professor Geraldo — diretor da Escola Olaria Beiramar — que passava por lá para conversar e dar dicas.

Livro da Giana de Souza e Jane Philippi, sobre a Escola Olaria Beiramar e seus idealizadores (Reprodução)
Geraldo tinha uma visão pragmática da profissão de oleiro e defendia a necessidade de aprimoramento constante. Dizia: “[O oleiro] precisa se dedicar, investir e persistir; participar das feiras de artesanato, expondo o seu produto com bom acabamento, de qualidade, indo onde está o povo para vender.”
Enquanto estava sentado no velório — onde o silêncio não era perturbado nem pelo barulho dos carros que passavam incessantemente na rua lá fora — olhei para o corpo do mestre Geraldo e para sua mãe, que estava do outro lado da sala. Me lembrei de uma frase dele que serviu de mote para uma das exposições que ajudei a divulgar.

“Enquanto o ventre embala o filho, nossas mãos abraçam a terra.” (Imagem gerada por IA Copilot/Microsoft)
Era uma mostra de utilitários em cerâmica — botijas, cumbucas, vasos e potes — inspirada no ventre materno. O professor orientou os alunos: “Serão peças abauladas que lembram a barriga da nossa mãe.”
Na entrevista que fiz para preparar o release, ele me disse: “O trabalho com a cerâmica é como uma poesia feita com as mãos. Eu diria: ‘Enquanto o ventre embala o filho, nossas mãos abraçam a terra.’”
Assim presto minha homenagem e gratidão ao mestre José Geraldo Germano, ao mesmo tempo em que peço a Deus que conforte o professor Newton de Souza, familiares e amigos pela nossa perda.
Descanse em paz, mestre Geraldo.
[Crônica CLXXXVII/2025]



