27 de abril de 2020

Palavras e crendices

Por José Carlos Sá

Palavras que não podem ser ditas (Foto blog Helio Peixoto)

Fui criado em uma casa cristã, meio católica e meio Testemunha de Jeová, e impregnada dos costumes antigos, em que certas palavras não podiam ser ditas, pois atrairiam doenças, desavenças e coisas ruins para dentro de casa e para a família.

Alguns exemplos, pois não me lembro de todos:

Falar “miséria” ou “desgraça” atraía a “Pelada”, que seria uma emissária do capeta, trazendo a pobreza e a desventura. Na minha cabeça de menino eu imaginava essa dita cuja coberta de farrapos de pano. Eu não via seu rosto, mas via as mãos ossudas, com unhas em garra, saindo da manga da túnica. Assombrante.

Câncer era outra palavra que não se dizia, era “doença ruim”. A notícia de que alguém estava com o diagnóstico positivo era dada em voz baixa e semblante grave, seguido do sinal da cruz.

Essa história do câncer era tão séria, que a minha avó nascida sob a regência daquele signo, dizia que era de Leão para não arruinar as previsões.

Quando alguém ia se referir a uma pessoa que já havia falecido, diziam o nome acrescido da frase “que Deus o tenha no lugar que merece”. Nunca se deveria dizer “Deus o dê um bom lugar”, pois este bom lugar poderia estar reservado para você, que cederia a vez para o extinto.

Outra curiosidade é quando iam dizer que a pessoa tinha um ferimento em algum lugar do corpo. O narrador apontava para o próprio organismo e ressaltava: “lá nele(a)”.

Eram precauções, nunca se sabe…

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Crendices Mãinha Teófilo Otoni Testemunha de Jeová 

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