03 de setembro de 2019

Um Belchior desconhecido

Por José Carlos Sá

Belchior foi crítico e quase ninguém percebeu (Foto Jornal Opção)

Há alguns meses assisti no Sr. Brasil, do Rolando Boldrin, a apresentação de uma jovem cantora, a Daíra, que apresentou músicas de Belchior, tendo cantado uma obra que eu não conhecia: “Princesa do meu lugar“. A partir daí fui em busca do Belchior desconhecido (para mim).

Reouvi músicas, li letras e artigos sobre o cantor/compositor que era vendido pela gravadora, à época do lançamento, como um membro do “clã brega”, devido ao bigode mexicano e a voz anasalada. A música de trabalho que escolheram foi “Apenas um rapaz latino americano”, que tocou nas rádios e teve apresentações do Belchior em programas de auditório na TV da década de 1970 como o Chacrinha, Bolinha, Barros de Alencar, Raul Gil, Flávio Cavalcante, entre outros. Nada a ver.

Belchior foi para o Sul em busca da oportunidade de se tornar artista. Morou em uma casa que estava sendo demolida e se mudava de cômodo a cada dia. Dizem que foi garoto de programa – como também teria sido Zé Ramalho – e alcançou o sucesso quando Elis Regina gravou duas músicas dele no LP “Falso Brilhante”: “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida”.

Belchior lembra o movimento hippie dos anos 60 e diz que aqueles que protestavam contra o sistema estavam em casa contando os “seus metais”. Ele também pergunta, provocando, onde está o “divino e maravilhoso” que o ‘antigo compositor baiano’ Caetano Veloso já cantava.

As músicas são repletas de referências literárias brasileiras e estrangeiras, como:
Castro Alves (“Ora direis ouvir estrelas, certo perdestes o senso”);
o italiano Dante Alighieri (Eu quero gozar no seu céu/ pode ser no seu inferno/Viver a divina comédia humana onde nada é eterno) ;
o americano Edgar Allan Poe (“Eu pergunto ao passarinho/Black bird, assum preto, o que se faz?/Raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven/Assum preto, pássaro preto, black bird, me responde: O passado nunca mais”);
musicais: Beatles, em “Medo de avião (“I wanna hold your hand”) ou Elton John, em “Don’t Shoot Me I’m Only the Piano Player”, em “Apenas um rapaz latino americano”.

Enfim, não entendi, contemporaneamente, o compositor Belchior, mesmo cantando, como papagaio, as músicas dele, sem analisar as letras. Mas sempre é tempo para pensar e continuo a pesquisa.

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Belchior Caetano Veloso Castro Alves Chacrinha Edgar Allan Poe Elis Regina The Beatles 

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Comentários

  • Leo Ladeia disse:

    Seo Zé a nostalgia chega na estação da aposentadoria com a maturidade no surrão.
    Belchior me falava de um passado que nem houve e de um futuro que já havia sido
    “Quando eu não tinha o olhar lacrimoso
    Que hoje eu trago e tenho
    Quando adoçava o meu pranto e o meu sono
    No bagaço de cana de engenho”
    Ou,
    “E até parece que foi ontem
    Minha mocidade
    Com diploma de sofrer
    De outra Universidade”
    Belchior trazia em si a magia e o lirismo desembestados. Trazia, traz ou trouxe?

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