26 de fevereiro de 2019

Saudades da broxa e da cal

Por José Carlos Sá

Que saudades! (Ilustra João Montanaro – Folha S.Paulo 25022019)

Ao ver a charge do João Montanaro, publicada na Folha S. Paulo de 25 de fevereiro, sobre os conflitos na Venezuela, especialmente na fronteira com o Brasil, lembrei dos meus tempos de quartel, na década de 1970. Quando recruta, depois da educação física, ordem unida, aulas teóricas, o cabo ou o sargento responsável por nossa turma, inventava algum serviço. Lavávamos o banheiro duas vezes, varríamos e encerávamos o alojamento, catávamos folhas secas. Uma vez o sargento mandou que carregássemos um monte de pedras de um canto para o outro – distante – em um terreno atrás da Base Aérea. Depois de três horas de trabalho, sob sol forte, terminamos a tarefa. Ele deu um tempo para descansarmos e mandou recolocarmos as pedras no local original. Como não adiantava xingar, cantávamos uma paródia de uma música do Luiz Gonzaga: “Minha vida é andar por este quartel, fazendo faxina e catando papel…

Mas a tarefa mais corriqueira era pintar meio fio e árvores. Tinha até uma máxima na Aeronáutica (copiada do Exército) que dizia: “O que estiver parado pinta de branco, o que se mexer pinte de azul!” Além dos recrutas, os pintores de meio fio eram, obrigatoriamente, todos os soldados e cabos que estivessem detidos. Entre o final do expediente e o horário do jantar, o Cabo do Dia colocava os detidos em forma, distribuía broxas e latas de cal e delimitava o trecho do meio fio que deveria ser pintado, atribuindo a cada um deles de um a dois metros de pintura a ser realizada.

Era um trabalho que não acabava nunca, pois a preguiça e a má-vontade impediam a conclusão. Ficavam uma hora fingindo que trabalhavam, até ser chamados de volta para o banho, o rancho e aguardar o toque de recolher.