19 de dezembro de 2018

Os problemas de uma palavra homógrafa*

Por José Carlos Sá

Jornal italiano Dal Messaggero noticia prisão do mafioso

Aproveitando o assunto do mandato de prisão e fuga do terrorista italiano Cesare Battisti, ocorridos esta semana, a Folha de S. Paulo  publicou na edição de hoje, 19/12, matéria sobre a realização de um filme, sobre a vida, crimes, fuga da Itália, a prisão no Brasil e a deportação de outro criminoso italiano, este altamente mafioso, Tommaso Buscetta (1928 – 2000). Ao contrário de Battisti, cuja vida pregressa já era bastante conhecida, a prisão de Buscetta foi uma surpresa para todos, pois naqueles tempos – década de 1970 – as notícias levavam um pouco mais de tempo para serem propagadas.

Jaime Gomide, apresentador do Jornal Bancominas foi surpreendido com o sobrenome do mafioso (Foto Blog do Rocha Miranda)

Na noite em que foi preso, eu assistia ao Jornal Bancominas, exibido pela TV Itacolomi, canal 4, de Belo Horizonte (1955  – 1979). O apresentador, Jaime Gomide (1942 – 2015), também foi pego de surpresa, com a notícia de última hora. Ao ler o espelho do jornal, Gomide falou com o vozeirão que ele tinha: “E atenção. Foi preso em Santa Catarina o mafioso italiano Tommaso …”  Olhou para a câmera e novamente para o papel e repetiu: “Foi preso o mafioso italiano Tommaso …” Na terceira tentativa, sem encarar os telespectadores e já sem empostação nenhuma, mandou: “Foi preso o mafioso italiano Tommaso Buscetta, que era procurado pela polícia internacional…”

No dia seguinte foi o assunto de todas as conversas. Não a prisão do mafioso, mas o sobrenome dele e o jeito que o Jaime Gomide o pronunciou. Se fosse nos dias de hoje, geraria milhões de “memes”. No roteiro do filme “O Traidor”, esta homografia não foi esquecida em uma cena, segundo conta o repórter da Folha, Guilherme Genestreti: “O delegado, anuncia a prisão, pronunciando o sobrenome do criminoso como se fosse ‘Busqueta‘ – a forma como os telejornais brasileiros, um tanto constrangidos, se referiam a ele. O mafioso corrige irritado: ‘É Buxeta!'”

* A gramática da língua portuguesa no ensina que palavras homógrafas são iguais na grafia, mas diferentes na pronúncia.