01 de outubro de 2017

Adeus ao velho pioneiro

Por José Carlos Sá

Edição de despedida do velho AM

Muito obrigado. Assim, agradecendo, quero iniciar minha despedida ao querido jornal Alto Madeira. Um impresso que enfrentou toda diversidade de obstáculos com o denodo de seus proprietários e funcionários, sucumbe à máquina esmagadora da economia e da modernidade. A pressa é o mal do século. Não temos mais tempo para pegar uma edição de um impresso e degusta-la página a página, notícia a notícia, até anúncios.

Fundado em 1917 pelo médico, político e membro da Comissão Rondon, Joaquim Augusto Tanajura, o Alto Madeira já nasceu combativo. Inicialmente sediado em Santo Antônio do Madeira, algum tempo depois o jornal passou a ser impresso na então incipiente cidade de Porto Velho. De lá para cá não houve assunto que o jornal não cobrisse ou seus articulistas comentassem.

As atividades dos governadores, senadores, prefeitos, vereadores e deputados foram fiscalizadas pelos jornalistas que emitiam suas opiniões sem medo e sem censura. Lembro-me do período em que trabalhei lá, a coluna “Pingos Políticos” era uma sessão esperada pelos leitores, pois ali eram publicadas notas inéditas de alto teor combustível. O seu Euro recebeu tantas reclamações dos atores de mal feitos, que os redatores passaram a se identificar, mas o teor apimentado da coluna não se alterou.

Redação do Alto Madeira, em um ano entre 1991 e 1993. A partir da esquerda Zézinho, Ivan Marrocos, Ciro Pinheiro, Juliano (motorista), Alice Thomaz, seu Cruz, Áureo, Nilton Salina, Willian Jorge, Carlos Neves e José Carlos Sá
(Foto Juanito/Acervo AM)

E falando do pouco, mas profícuo tempo que passei no Alto Madeira – perto de três anos – aprendi muito com a equipe, pois minha experiência era de TV, rádio e assessoria de Imprensa. Foi o primeiro impresso em que trabalhei, tendo a orientação e o apoio do saudoso Paulinho Correia, além do também saudoso Ivan Marrocos, dos diretores Euro e Luiz Tourinho e dos demais colegas Rodrigo Bonfim, Lúcio Albuquerque, Nonato Cruz, Carlinhos Neves (in memoria), Ciro Pinheiro, Willian Jorge, entre outros.

Desse período recordo de algumas matérias especiais que fui pautado: greve da PM (quase apanho dos grevistas, por ser confundido com colega de outro jornal), a crise do cólera, uma das muitas retiradas dos garimpeiros do rio Madeira, a cheia do rio Madeira de 1992. Houve muitas outras que estão guardadas na minha memória, mas que, infelizmente, não arquivei na minha estante.

Para finalizar um fato que demonstra a união entre a equipe da redação e a independência na cobertura dos fatos do dia a dia. Discutíamos em quem votar para prefeito nas eleições de 1992. Cada um foi falando a razão que o levava a votar em um e não no outro e, no final, o candidato de todos ali era o José Guedes. Votamos nele e fiz a primeira entrevista do Guedes eleito. Mas a lua de mel terminou logo. Poucos meses de mandato e o Alto Madeira já apontava as deficiência da administração tucana. Soube que José Guedes ligou para o seu Euro, querendo saber o que tinha acontecido conosco. A resposta – soube depois – foi: “Você sabe como são os jornalistas…” E o pau continuou.

Então, é com agradecimentos que me despeço desse jornal do qual tive a honra de fazer parte e que guardo e guardarei muito boas recordações. Muito obrigado.